Texto de Fernando Biondi
Perder, geralmente remete ao ato da dor, sofrimento, inquietação, impotência. Raramente pessoas aceitam perdas pacificamente, seja na vida pessoal ou profissional. Um simples jogo de cartas, mesmo não envolvendo apostas, tem o poder de deixá-las contrariadas quando são derrotadas, assim como o time para o qual se torce invariavelmente provoca reações de aborrecimentos, sendo a vitória do adversário.
Saber conviver com ganhos e perdas, vitórias e derrotas, é arte do vencedor. A vida não contempla o ser humano com a perfeição em acertar sempre. Já nascemos com o árduo desafio da luta pelo equilíbrio; há que rastejar e se entender com vários tombos antes de se firmar e aprender a caminhar. Mais na frente à competição, desafios e obstáculos cobram de cada um capacidade de superação, conhecimento e determinação, para alcançar os objetivos propostos.
No mercado acionário não é diferente e, certamente, conviver com a perda é a situação que causa mais desconforto em muitos investidores. Não raro, os que operam na bolsa de valores se vêem em posições contrárias às expectativas e planejamento inicial. No entanto, deve-se destacar que, entre a perda e a derrota definitiva, existe diferença significativa. Como no exemplo acima, o seu time do coração pode perder algumas partidas em um campeonato e ainda assim sagrar-se campeão. Portanto, dizemos que as perdas fizeram parte do percurso, mas não impediram o sucesso do planejamento inicial. Quem se abala excessivamente por momentos difíceis, poderá não ter estrutura para manter-se equilibrado o suficiente, mantendo a coerência nas decisões.
O investidor deve contemplar possíveis perdas nas operações como parte da estratégia para alcançar seus objetivos. O percentual para os prejuízos aceitáveis dependerá do perfil do investidor e do tipo de operação a que este se propõe. Operações de longo prazo requerem planejamento especifico, paciência e aquisições regulares dos ativos propostos — uma vez que o preço médio contará a favor das aplicações —, além do uso da Análise Fundamentalista das empresas em que pousam as aplicações, assim como margem mais generosa para o uso do stop.
Curto e médio prazo exigem acompanhamento regular, gerenciamento do investimento com mais destreza, tendo na Análise Técnica um bom aliado para se apoiar.
Já nas rápidas investidas do curtíssimo prazo (swing trade e day trade) as margens para aceitar prejuízos encurtam bastante, tendo o operador que usar da capacidade de especular, agindo nos momentos de força ou retomada do mercado, e aproveitando-se das altas em situações propícias. Essas operações cobram também estrutura psicológica adequada, uma vez que a tensão e pressão costumam ser invariavelmente maiores, assim como os riscos.
Operar na ponta contrária ao habitual do mercado, ou seja, na venda, não muda muito os contextos acima, devendo o investidor acreditar na possibilidade da queda e não da alta.
Aceitando o prejuízo dentro do plano de investimento, o investidor ou especulador de mercado deve definir até onde é aceitável assumir as perdas, na expectativa de ganhos. Como o mercado é cíclico, nada impede que um ativo com valor atual de X desvalorize até Y e, mais adiante, se recupere das quedas e venha a auferir novos ganhos chegando a Z. É importante que a expectativa de alta seja maior do que a de baixa, e que os objetivos de lucros e perdas sejam coerentes, sendo que a projeção de lucro seja maior que a de perda. Citando como exemplo, compra-se por dez, com limite de perda de um, e projeção de ganho de três. Neste caso, se em três operações acertar duas e perder uma, ainda assim irá auferir lucro, desde que os valores investidos sejam os mesmos. Claro que se deve avaliar os prazos aproximados e aceitáveis para o término da operação. A definição do percentual máximo para perda tranquiliza o investidor, uma vez que fazendo parte da estratégia inicial e aceitando que a operação poderá não ser bem sucedida, estará preparado psicologicamente com definição antecipada do risco.
Outra situação que não envolve prejuízos maiores, mas sim gerenciamento de lucro, é que, uma vez estando em um investimento vencedor, com objetivos finais que ainda não foram alcançados, subir gradativamente os valores do stop visando proteger parte dos ganhos até então. Se projetar lucro de 30% e os preços valorizaram 20%, pode-se estabelecer que, caso não chegue ao valor de alta da estratégia inicial e volte em queda, liquida-se a operação ao retroagir a 10% de ganhos. Assim, estará se protegendo de surpresas desagradáveis que porventura o mercado poderá pregar-lhe.
Seja qual for o tipo de aplicação, as perdas devem fazer parte da estratégia estabelecida anteriormente. Aquele que não se propõe a perder, dificilmente vencerá no mercado acionário, uma vez que é pouco provável realizar dezenas ou centenas de operações ao longo dos anos, sem que em algumas delas após a compra os preços não sofram retração.
Importante ressaltar que, uma vez atingido o valor da perda estabelecida, o melhor a fazer é finalizar a operação. Isso se chama disciplina, característica de suma importância para aqueles que operam mercado.
Perder faz parte das estratégias, e saber conviver com esse árduo desafio em aceitá-la credita ao investidor melhor estrutura para operar mercado.
Fernando Biondi é empresário, e escreve no blog Papo de Bolsa.
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