Márcio Noronha é reconhecido como um dos maiores especialistas de Análise Técnica do país. Nessa entrevista, dividida em duas partes, conversamos com ele para entender melhor a trajetória que o levou ao sucesso no mercado de capitais. Na primeira parte deste bate-papo, Noronha fala sobre os sucessos e fracassos, de quem não possuía experiência no setor, mas encarou o desafio e soube aproveitar as boas oportunidades.
Meu Milhão: Como você se envolveu com o mercado financeiro?
Marcio Noronha: Em 1966, ano que me formei como economista na Faculdade Nacional de Ciências Econômicas do Rio de Janeiro (atual UFRJ), respondi a um anúncio publicado no Jornal do Brasil. Era de uma grande empresa, que atuava no mercado de capitais e estava em busca de profissionais liberais ,para atuarem no seu quadro de assessores financeiros. Depois da entrevista e dos testes, fui selecionado para o meu primeiro emprego na corretora M. Marcello Leite Barbosa. Na época, era a maior corretora do Brasil, com um Market Share em torno de 60%.
MM: E quando foi esse primeiro contato com o mercado de ações?
Noronha: Antes de começar a trabalhar, passei por um período de treinamento de um mês. O foco era o mercado aberto (open-market), um segmento da dívida pública que estava ressurgindo, após a revolução militar de 1964. Depois da fase de treinamento, fui designado para trabalhar na mesa de operações da corretora, com a função de bater o mercado em busca de posições para nossos clientes. Quando possível, eu deveria intermediar pontes entre duas instituições financeiras. Na época, a mesa do open ficava na mesma sala da mesa de operações de bolsa, onde o telefone de magneto fazia a ligação entre a corretora e o pregão. As confirmações chegavam através de uma fita perfurada, como a de um Telex.
MM: Você começou a investir imediatamente?
Noronha: Não, apesar da insistência do Sr. Marcello para que eu comprasse umas ações com o dinheiro que estava ganhando. Passei pelo menos uns três meses sem dar a menor importância ao mercado de ações. Mas, como estava em alta e, ao meu redor, muita gente estava ganhando dinheiro, acabei sucumbindo à tentação e comprei alguns ativos.
MM: Qual foi seu critério de seleção das primeiras ações?
Noronha: No começo, foi por dica. Comprei apenas o que o Sr. Marcello me sugeriu. Depois, como na corretora havia um departamento de pesquisa fundamentalista, que fornecia relatórios para os clientes, passei a utilizá-lo.
MM: Como você se saiu com as suas operações?
Noronha: Muito bem, comecei a ganhar muito dinheiro, com uma facilidade jamais imaginada. Era comprar e correr para o abraço!
MM: Você pode dizer que ficou rico?
Noronha: Pode-se dizer que sim. Aos poucos fui ganhando confiança e coragem, e segui comprando cada vez mais. Se não me engano, em 1968, a BVRJ disponibilizou para o mercado o primeiro tipo de alavancagem, criando as Operações a Termo. A partir daquele momento, qualquer investidor poderia alavancar cerca de 5 vezes o seu capital. Assim, quem tivesse 10 mil poderia operar até uns 50 mil a termo.
MM: E você fez uso dessa alavancagem?
Noronha: Feito um alucinado, era fácil demais! Normalmente, existiam financiadores para 30, 60 ou 90 dias. Optei por Termos de sessenta dias. Quando dava errado, levava até o vencimento e rolava dobrado por mais sessenta. E como o mercado era de alta, acabava ganhando ainda mais. Raramente foi necessário rolar uma segunda vez, só quando fui à bancarrota em dezembro de 1971.
MM: Como se sentia diante desses ganhos?
Noronha: Aos poucos, comecei a achar que estava entendendo do negócio. Na medida em que as minhas operações foram aumentando de valor, passei a ser observado por muitos investidores. Em pouco tempo, já estava nas páginas de economia e de algumas colunas sociais, que cantavam em prosa e verso as minhas habilidades como ganhador de dinheiro. O Zózimo Barroso do Amaral dizia que eu era o rei Midas. E o pior é que acabei acreditando!
MM: Após ter quebrado, como se recuperou do prejuízo?
Noronha: Considerando o tamanho do meu patrimônio, nunca mais cheguei nem perto. Na época, perdi uns US$ 8 milhões. Corrigido pela inflação do dólar, em valores de hoje, seriam cerca de US$ 100 milhões. Mas, a partir de 1973, voltei a trabalhar numa mesa de open-market e, aos poucos, terminei de pagar algumas dívidas remanescentes. Comecei a formar um pé-de-meia, com dinheiro proveniente do meu trabalho. Só voltei ao mercado de ações em 1984.
Se você se interessou por esta história e quer conhecer algumas dicas para investidores iniciantes, não deixe de acompanhar a segunda e última parte da entrevista com Márcio Noronha, que já foi publicada.
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